
A solução para a oferta adequada de água potável em Bauru, com uso sustentável, envolve mais de uma ação de gestão e plano. Desde agora! Esta é a essência do projeto Sacre, a maior pesquisa aplicada de uso resiliente de água de superfície e subterrânea em andamento no País. O programa coordenado pelo professor do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Hirata, aposta em frentes integradas de ações em gestão e investimentos, o que inclui, em um eixo essencial, a formação da chamada cidade-esponja. Mas a redução da carência de água exige outras várias medidas. E você vai saber delas na Grande Reportagem de hoje.
É o que apresentou o professor Hirata em audiência pública na semana passada, na Câmara Municipal de Bauru, presidida pelo vereador Júnior Rodrigues. Para ele, ficou claro que “o fim dos problemas com torneira seca na cidade não envolve uma única medida. O programa de investimentos em poços pulmão, como na região do Val de Palmas, é importante nesta fase. Mas o estudo Sacre traz e atualiza dados que reafirmam que várias ações têm de ser planejadas, desde já, que vão desde recuperar o Rio Batalha ao cumprimento de investimentos de curto, médio e longo prazo previstos no Plano Diretor de Águas (PDA) de 2015 e que tem de ser urgente atualizado”, comenta.
Ricardo Hirata apresentou, na audiência, que a pesquisa pressupõe “soluções integradas para cidades resilientes”. Por qualquer ângulo apresentado pelo estudo, a aposta em “cidade-esponja” implica em pontos como ampliar Reservatórios, formar bolsões de retenção natural de água (para represar água na superfície e reduzir o efeito sobre inundações urbanas), aumentar as áreas de vegetação e parques permeáveis, criar ‘fazendas de poços’, reduzir drasticamente ás perdas por vazamentos na rede e programar e realizar os investimentos em infraestrurura hídrica (adutoras, poços, controle de pressão de água na tubulação e interligações).
A questão é que várias dessas ações já está em lei municipal, desde 2019, quando o atual Plano Diretor de Água (PDA) entregue em 2015 descreveu todos os problemas do sistema atual gerido pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) e listou, uma a uma, as ações resumidas acima. Hirata reforça que “nenhuma cidade terá uma solução única para fazer. São várias ações, e integradas. Bauru tem basicamente 3 fontes de água para o abastecimento de sua população urbana: a) a captação de água superficial do rio Batalha (25%); (b) poços do Sistema Aquífero Guarani (SAG) (70-65%); e (c) cerca de 800 poços privados que explotam água do Sistema Aquífero Bauru (SAB) (5-10%). Todas têm vantagens e limitações; muitas delas muito conhecidas, embora as razões e suas soluções, devidas à complexidade, requerem soluções ou caras ou complexas”.

ESTUDO
Por meio de modelos numéricos, o atual estágio do Sacre já verificou que Rio Batalha não tem água suficiente para todos os usuários (consumo residencial, comercial, agrícola, etc.). “Este cenário tende a reduzir a oferta de água devido ao aumento da silvicultura, sobretudo de eucalipto, ou mesmo será impactado pelas mudanças climáticas. E veja que o eucalipto é uma planta de alto consumo de água, mas várias outras culturas agrícolas também o são”, cita.
Além disso, o sistema de captação e tratamento (ETA) também se mostra ineficiente (antigo). “A solução passaria por proteger o Rio Batalha e evitar a sua erosão, por meio do controle do uso da terra e da mata ciliar e, também, a gestão dos diversos usos. Mas isso exige a restrição de algumas atividades, visando preservar o principal usuário das suas águas, que é a cidade de Bauru”, elenca. Aqui vem dois erros acumulados. O Batalha e seus afluentes estão sendo deteriorados e Bauru e as cidades vizinhas assistem ao processo.

SECANDO
A pesquisa também ratifica outras realidades conflitantes com a busca de solução. Bauru retira da Lagoa do Batalha (em Piratininga) acima da capacidade daquele ponto, o sistema do DAE desperdiça muito da água que produz (vazamentos) e o sistema de poços em uso (40 unidades hoje operando) aponta rebaixamento anual. “O Sistema Aquífero Guarani (SAG) apresenta, na região mais central urbana, perdas no nível de água (nível estático e dinâmico de seus poços) de 1 a 2 metros/ano, devido ao intenso bombeamento e à forte interferência hidráulica entre poços”, descreve o especialista.
Ou seja, além do DAE, há anos, retirar da única Lagoa de Captação acima da capacidade daquele ponto (vazão), as bombas dos poços funcionam 24h – mantendo mais caro e vulnerável o sistema de abastecimento. (a conta de consumo de energia é R$ 40 milhões/ano). “A solução seria reduzir a extração de água nessa área central e construir mais poços na periferia da cidade, incluindo um campo de poços (fazendas de água). A queda do nível tem aumentado os custos de extração de água”, cita Hirata. Um modelo numérico está sendo construído no estudo como ferramenta fundamental para definir como gerenciar a extração do aquífero Guarani (águas mais profundas) e prolongar seu fornecimento.
POÇOS ARTESIANOS
Já o Sistema do Aquífero Bauru (SAB) possui mais de 800 poços privados, em torno de 63% sem outorga (sob fiscalização do Estado – SPÁguas). São poços artesianos de águas rasas, de 30 a 40 metros em sua maioria. “O correto seria que os poços privados tivessem cimentação sanitária a 30 m de profundidade, o que reduziria a sua vulnerabilidade. Hoje o que esses poços fazem é mesclar águas contaminadas de superfície com águas puras e limpas de profundidade, resultando em água apta ao consumo humano”, avalia.
Como gestor municipal, o DAE tem de exigir e monitorar análises químicas completas anuais (que incluam o básico e também metais pesados, solventes, pesticidas). De outro lado, os poços particulares acabam ajudando a reduzir a escassez, por não utilizarem a demanda de água da rede pública (poços e Batalha).
DEFICIÊNCIAS
Assim como está apontado no Plano Diretor de Águas de 2015 (PDA), a insuficiência do Batalha, a superexploração 24h dos poços profundos (Aquífero Guarani) e a perda de produção do sistema SAG se somam, aos desafios principais, à necessidade de resolver a pouca eficiência da ETA (Estação de Tratamento do Ouro Verde, o aumento dos Reservatórios (físicos) e Naturais (Lagoas urbanas) e o igualmente urgente plano operacional de redução dos vazamentos (perdas).
“Cada um desses aspectos faz com que menos água chegue às casas. Ter um programa para localizar vazamentos e consertá-los é fundamental para a cidade. É gestão integrada. O PDA é um ótimo plano a ser revisado para isso. E cruzar o estudo com os modelos numéricos que desenvolvemos para assessorar a tomada de decisões. A cidade tem uma opção única que os planos tradicionais geralmente não têm, por falta do enfoque integrado”, destaca o professor.
MELHOR SOLUÇÃO
Então, após já alguns anos estudando Bauru, qual é a melhor solução ou as melhores? “Minha opinião é que todas elas devam ser estudadas e analisadas em conjunto para entendermos qual apresenta a melhor relação custo-benefício. E a opção não deve se restringir ao econômico (o mais barato), mas incluir aspectos sociais e ecológicos, e, sobretudo, o tempo necessário à sua implementação, pois alguns exigem obras de maior tempo, busca por financiamento”, opina Hirata.
O professor pondera que, das ações possíveis, a captação no Rio Tietê é a alternativa mais cara, “mas pode oferecer uma solução que atenda a toda a cidade, resolvendo, de uma só vez, o problema de água do Rio Batalha e dos poços do SAG”. Ele ainda pondera que o estudo dessa opção deve levar em conta a redução de operação dos poços (SAG), visando menores custos.
Ou seja, a captação no Rio Tietê (apresentada pelo governo do Estado como investimento mais robusto via uma concessão, na semana passada) é algo que deve ser avaliado no todo (custos de adutora, licenciamento no percurso entre cidades, operação, investimento de instalação, e impactos). Essa opção também exigirá uma ETA nova de maior capacidade e Estações Elevatórias e bombas para vencer a distância e a geografia no trajeto entre o Tietê e Bauru. “As ETAS modernas dão conta disso”, enfatiza o professor da USP.
Hirata menciona que “o que é bem mais rápido e tem custos comparativamente menores é a construção de campos de poços (poços próximos que operam de forma integrada e coordenada). Uma “fazenda de água””. O estudo do Sacre mostra que há mais áreas potenciais para o desenvolvimento de estudos de viabilidade.
FASE DO SACRE
A atual fase do projeto SACRE busca construir um modelo de simulação das águas superficiais e subterrâneas acopladas (integrando ambas as águas), para servir de base para definir, quantificar e apresentar soluções (quem recebe quanto de água em diferentes condições do rio e aquífero) para a tomada de decisões planejadas.
Mas o Sacre vai além de buscar soluções para a escassez de água em Bauru. “As cidades do futuro serão aquelas em que as residências, os negócios e as indústrias tenham sistemas separados para atender às suas necessidades de água. Não é necessário ter água potável para dar a descarga no banheiro, pode-se usar a água do lençol freático, que pode até estar contaminada e ser não potável. Essa mesma água de poços rasos (SAB) poderá ser usada para limpar ruas, irrigar jardins e áreas verdes (não frutíferas)”, amplia.
Em nosso regime climático monçônico (verão chuvoso e inverno seco), é possível reservar essas águas de chuva no aquífero para usá-las na estiagem. “Isso estamos fazendo na bacia do rio Batalha. E estamos avaliando também para a região do Horto Florestal, um sistema que retira água contaminada do córrego do Comprido, a trata com árvores e promove a recarga de aquíferos com água limpa”, conclui Hirata.
Ao fim, então, o estudo envolve ações diversas, integradas sendo que, cada uma, contribui para o uso racional e o armazenamento de águas. O plano, no todo, assim, de cidade-esponja, é um conceito ampliado, ambiental e hídrico.
Presidente do DAE: “Bauru vai precisar de nova ETA na Zona Norte”

O engenheiro João Carlos Viegas conta que a ampliação da reservação natural de água na região de captação do Batalha não vai sair até abril, como anunciou, mas garante que a intervenção será entregue em 2026. Como presidente recente do DAE, Viegas avalia que todas as ações em estudo no projeto Sacre são necessárias e inclui, no rol, a necessidade da cidade instalar uma nova Estação de Tratamento de Água (ETA) e Captação na Zona Norte, Isso significa, segundo Viegas, “que as soluções de gestão integradas para resolver o sistema de abastecimento da cidade devem incluir uma nova ETA na bacia do Água Parada”.
A utilização de água na região do Água Parada, no lado oposto a Lagoa do Batalha, na zona Sul, está apontada no Plano Diretor de Águas (PDA) de 2015 e em outros estudos sobre abastecimento de Bauru como alternativa futura de abastecimento, mas fundamental. Contudo, a opção foi “descartada” pelos últimos presidentes do DAE, seja por desconsiderar o potencial (e necessidade) de fontes alternativas para complementar a demanda de consumo, no tempo, seja pela opção política de gestões de concentrar as discussões no sistema Batalha (onde as carências são mais latentes e geraram vários rodízios por escassez no fornecimento de água).
“Há necessidade da cidade ter uma nova ETA na Zona Norte. E o sistema Água Parada tem volume de água em condições de integrar o fornecimento futuro. Hoje a prioridade está voltada para o Batalha, com investimentos da prefeita já em andamento nos poços pulmão, reservatório e adutora no Val de Palmas porque de fato esta é a prioridade. Mas Bauru não pode manter bombas em 40 poços funcionando 24 horas. Isso é muito caro e esgota muito o sistema”, aponta.
Viegas comunga dos apontamentos do estudo Sacre de que “as soluções estão em várias frentes. Estamos neste momento realizando as determinações da prefeita no Val de Palmas, comprando uma máquina hidro para ter como desobstruir afluentes e o canal do Batalha o tempo todo, temos uma série de investimentos em reservação, controle de perdas, interligações, controle de pressão da rede. Todas as ações aponta, a curto e médio prazo, para a necessidade de reduzir o uso e perfurar novas ponteiras (poços). Porque o sistema tem de contar com várias alternativas, no tempo”, opina.
Sobre buscar água no Rio Tietê (conforme anunciado pela prefeita em projeto conjunto com investimento citado pelo governo do Estado”, Viegas diz: “Caro é deixar de fazer. Se é razoável apontar que buscar água no Rio Tietê é solução para perto de 2045 também é certo dizer que toda água é importante. E nesse cenário de mudanças climáticas e um sistema em Bauru que hoje perde muito do que produz (vazamentos) e retira mais do que o Batalha oferece (na Captação atual), antecipar a oferta de água via Tietê é pensar em resolver antes, porque a carência existe. E esse plano tem o fôlego do investimento do Estado, que Bauru não tem”, defende.
A curto prazo, o presidente do DAE reafirma que a ampliação da Lagoa de Captação do Batalha dos atuais 80 mil m3 para 800 mil m3 de reservação natural “será entregue em 2026”. Ele inclui na lista de necessidades, como apontado no PDA (que será revisado no próximo ano), a segunda Captação (22 km abaixo da atual, no Batalha), a troca de 24 comportas na ETA (no próximo ano) e “todas as ações de engenharia e operacionais para reduzir o tempo de uso dos poços em alguns anos, desafogar o uso do Aquífero (Guarani) e fazer gestão do sistema com controle de perdas, Reservatórios, o cronograma de interligações e monitoramento de pressão da rede. “Tem de programar e fazer cada item do PDA e isso inclui setorizar, substituir redes de quilômetros. Não há solução futura de uma ou outra medida isolada. É um sistema”, completa.
Sensor hig-tech da Unesp caça vazamentos nas ruas de Bauru

Equipamento será apresentado em lote de produção como produto pioneiro na principal feira da América Latina em 2026
Tanto maior do que o desafio de garantir água potável para a população em todo o Planeta é a busca por soluções eficazes de contenção de perdas nos milhares de quilômetros de tubulações nas cidades. Em Bauru, o projeto de pesquisa financiado pela Fapesp e desenvolvido em colaboração com a Sabesp concluiu o desenvolvimento de equipamento capaz de localizar vazamentos à distância, com maior precisão do que os atuais, como os geofones.
O projeto desenvolvido junto à Faculdade de Engenharia da Unesp bauruense será apresentado com o primeiro lote de produção na Fenasan, no segundo semestre de 2026, a maior feira do setor da América Latina.
A informação é do engenheiro mecânico Fabrício César Lobato, professor da Faculdade no campus local e um dos principais especialistas no País na detecção de problemas em redes de água e esgoto. “O correlacionador é um equipamento nacional muito mais acessível que os instrumentos já desenvolvidos. Saímos de um custo de até R$ 250 mil, com itens importados, para algo abaixo de R$ 70 mil e capaz de calibrar e avaliar onde está o vazamento”, explica.
Hoje, os chamados geofones utilizados pelo Departamento de Água e Esgoto (DAE) são de sensores simples, com dificuldades na detecção dependendo do tipo de solo e tubulação. “O correlacionador foi testado com eficácia no mês passado e para identificação do local do vazamento a partir da base do solo (asfalto) mesmo para tubos de PVC em 1 metro de profundidade”, conta. Até então, um dos desafios era a precisão diante de obstáculos como o solo e o tipo de material. Os sensores mais simples atuam melhor para tubos em metal ou fibrocimento, mas não para compostos de plásticos. Ainda assim, a localização do vazamento é imprecisa.
O Departamento de Combate às Perdas da Companhia de Saneamento do Estado (Sabesp), parceira na experiência, aponta que a extensão de rede de abastecimento é tão grande no Estado (120 mil km de canos subterrâneos) que o caminho indicado nas pesquisas é o de tapar os buracos com rapidez e eficiência, ao invés de substituir. A Sabesp participa do programa com o professor Lobato há mais de 10 anos.
Fabrício Lobato se aprofunda no assunto desde 2009, quando de seu doutorado em Southampton, na Inglaterra, orientado na ocasião por Michael Brennan, um dos maiores especialistas do mundo na área, hoje professor na Unesp em Ilha Solteira.
O inédito detector de superfície localiza vazamentos à distância, sem a necessidade do equipamento em contato físico direto com o cano. Até então, hastes e geofones se limitam a tornar o sinal emitido perceptível ao ouvido. Mas o técnico tem de distinguir o som. Mesmo por vibração, as ferramentas atuais estão longe da precisão do sensor desenvolvido pelos correlacionadores.
O equipamento testado traz que o uso de sensores relaciona e “calcula” medições de propagação de ondas, inclusive em tempo e velocidade das vibrações, trazendo resultado eficaz da posição do vazamento.

Obrigado pelas matérias de 2025 e todas as bênçãos pela produção de informações técnicas em 2026. Grato. Xaides