
A evasão de jovens policiais militares no Estado de São Paulo atinge patamar preocupante e de alerta para a gestão e garantia de efetivo para os desafios em segurança pública nos 645 municípios e Capital. Registros oficiais de exonerações a pedido de PMs em 2025 apontam a saída de 917 profissionais, conforme publicações no Diário Oficial do Estado (DOE). O número já é quase três vezes maior do que os 356 que deixaram a carreira na segurança pública militar paulista desde 2020.
Entre os principais “motivadores” do quadro está a ‘falta de motivação’ para a permanência na carreira. São 4 as razões elementares, apontam integrantes da própria carreira militar do Estado. Em uma rede social exclusiva de policiais militares, com mais de 40 mil membros, de todas as patentes (da ativa e aposentados), foi publicado, neste início de ano, quadro completo das exonerações a pedido – aquela em que a pessoa exerce o direito de deixar a carreira. Veja nesta reportagem (abaixo), avaliação do governo do Estado a respeito.
Se em 2020, com João Dória no governo, foram 356 militares que pediram para deixar a carreira, em 2021 544 policiais exerceram exoneração. E o volume só aumentou nos anos seguintes. Foram 669 em 2022, outros 676 em 2023 e 806 (2024). Para lembrar, Dória deixou o governo em abril de 2022. Rodrigo Garcia, seu então vice, fechou aquele mandato. Tarcísio de Freitas assumiu em 1 de janeiro de 2023. Em seu primeiro mandato, portanto, permanece a escalada de profissionais desistindo de ser policial militar. A maioria dos que desistem são jovens egressos na corporação.
Para o ex-comandante Geral de Polícia do Estado de São Paulo, coronel Benedito Roberto Meira, “o quadro é muito preocupante e exige repensar o formato de concursos e plano de carreira. Primeiro é preciso observar que estamos falando sobretudo do ingresso de jovens. E esse público mudou seu perfil, ou comportamento, em relação a sua expectativa pessoal diante da carreira militar. O mercado de trabalho, neste momento, oferece já há alguns anos inúmeros atrativos que influenciam a decisão deste jovem policial em pedir exoneração”, observa.
Coronel Meira avalia que “o jovem não pensa, como as gerações anteriores, em estabilidade. Ao contrário, é muito comum este jovem pensar em retornos mais imediatos. E a ampla oferta de empregos, em uma diversidade de áreas como tecnologia e mesmo empreendedorismo em segmentos comerciais (pequenos negócios) estimulam este jovem a deixar a carreira. Mas não é só isso”, cita.
O ex-comandante amplia que os fatores risco crescente da profissão, salário menos atrativo do que outras oportunidades na fase de juventude e formato do concurso reforçam as causas para o aumento exponencial de desligamentos. “O jovem passa no concurso e vai para a rua enfrentar situações de maior potencial de risco para sua segurança. Tende a se preocupar com segurança de sua família. O salário, proporcional, oferecido compete com oportunidades bem mais vantajosas em várias frentes já no início. E a carreira de policial militar impõe sacrifícios adicionais exatamente nesta fase inicial”, posiciona.
CONCURSOS
Benedito Meira aponta para o “calvário dos concursos na PM”.
“Veja o jovem passa no concurso e tem de ficar 1 ano na escola da Capital para sua formação. O edital exige depois de formado que ele fique pelo menos mais 1 ano na Capital, ou Grande São Paulo, ao começar a trabalhar. E, mesmo depois disso, depois de passar no concurso e começar a trabalhar ele fica, em média, mais de 3 a 4 anos ainda na lista de espera para poder ter uma oportunidade de voltar para a casa. E a maioria é do Interior”, descreve.
Para o coronel, “hoje já está caindo muito mesmo o número de jovens que se inscrevem no concurso quando leem essas regras no edital. E os dados mostram a evasão cada vez mais de que quem passou no concurso e o longo tempo para tentar voltar para sua família, ou a cidade onde mora. Ai ele pede baixa”, complementa. “Concurso de PM para 2.500 vagas tinha 90 mil inscritos. Hoje tem a metade. E o Estado enfrenta dificuldade em preencher todas as vagas abertas”, menciona.

REGIONALIZAÇÃO
O ex-comandante Geral da PM Paulista defende a regionalização dos concursos. Ele aponta que o Estado tem fixado, em lei, quadro da Polícia Militar com 93.500 vagas. “Hoje o Estado conta com algo entre 77 mil e 80 mil policiais nos quadros. As escolas de Formação (Pirituba e Interior) tem capacidade de 3 mil por ano. Sendo 1.500 na Capital (Pirituba) e a outra metade no Interior. O edital já destina a maioria das vagas para ocupar na Capital e Grande SP. Defendo o edital ser por regional. Bauru tem 200 vagas e faz o seu edital. Assim por diante”, aborda.
Ou seja, metade do total de vagas seriam para disputa em cada uma das regionais do Estado, totalizado oportunidade de 1.500 vagas para trabalhar, desde o início, em cidades do Interior. “Certamente as famílias e esses jovens estariam somente com isso estimulados a prestar em suas regiões. A maioria dos desligamentos são de soldados novos, no máximo de segunda classe (com 1 ano de atuação). A Escola de Soldado com concurso no Interior é essencial para estancar essa alarmante evasão”, conclui.
Outra situação presente na defasagem de reposição de quadros no Interior. Cidades que montaram as Guardas Municipais também têm enfrentado redução no quadro de policiais militares, cita Meira. “Um exemplo. Santana do Parnaíba tem mais de 400 Guardas em seu quadro. Com salários mais atrativos para início de carreira. E lá tem 80 PMs”, finaliza.

Estado não descarta ajustes e redistribuição de Escolas no Interior
A redação contatou a assessoria de imprensa do Comando Geral da Polícia Militar no Estado. Enviamos, ainda, os dados e 5 indagações contendo os principais pontos da avaliação da evasão de PMs. A seguir, o conteúdo comentado pela corporação:
“A Secretaria de Segurança Pública esclarece que os dados de exoneração da Polícia Militar abrangem situações distintas, como desligamentos voluntários a pedido do próprio policial, além de exclusões decorrentes de procedimentos disciplinares, instaurados para apurar transgressões graves. A Instituição acompanha esse cenário de forma permanente, com foco no aperfeiçoamento da gestão de recursos humanos, na valorização da carreira policial e no fortalecimento dos mecanismos de controle interno. Nesse contexto, a atuação da Corregedoria tem se mostrado efetiva na apuração rigorosa de denúncias e na aplicação das penalidades cabíveis nos casos de excesso ou desvio de conduta.
Ademais, a Polícia Militar também realiza avaliação contínua da estrutura e da distribuição das unidades de ensino destinadas à formação de novos policiais e não descarta ajustes para atender de forma mais eficiente às demandas regionais, desde que seja viável tecnicamente.
Importante destacar que, como parte desse processo de avaliação e aprimoramento, a atual gestão concedeu reajuste salarial médio de 25,2% para todas as carreiras da segurança pública, medida que teve entre seus objetivos a melhoria do salário inicial e o estímulo ao ingresso na carreira policial. Desde 2023, 9,8 mil policiais militares já foram formados, outros 2,7 mil encontram-se em capacitação, e 6,6 mil vagas estão em processo de preenchimento por meio de concursos em andamento e já autorizados”, finaliza a nota.
Na rede, Policiais reforçam preocupação com perdas
Tivemos acesso a uma avaliação com apontamentos técnicos, estruturais, realizado por Policiais Militares experientes na sistemática de preenchimento e evolução da carreira no Estado.
A seguir, os principais pontos elencados pelo grupo:
Em termos objetivos, o quantitativo registrado em 2025 corresponde a uma média aproximada de 2,5 baixas por dia, índice considerado elevado para uma instituição cuja eficiência está diretamente associada à estabilidade do efetivo, à experiência profissional acumulada e à continuidade do serviço policial — fatores essenciais ao cumprimento das atribuições constitucionais de preservação da ordem pública.
O dado mais sensível do levantamento reside no crescimento expressivo das exonerações ao longo do período analisado, atingindo em 2025 um patamar quase três vezes superior ao observado em 2020, o que reforça a existência de uma tendência estrutural de evasão, que não pode ser tratada como fenômeno isolado.
Cumpre destacar que os números apresentados não contemplam outras formas relevantes de redução do efetivo, tais como:
– Policiais que ingressam na reserva;
– Afastamentos por licenças, sejam elas para tratamento de saúde ou por motivos pessoais;
– Óbitos ocorridos em serviço ou em período de folga.
Quando somados às exonerações, esses fatores ampliam substancialmente o impacto real sobre a força de trabalho disponível, gerando reflexos diretos na distribuição do policiamento ostensivo, na sobrecarga das equipes remanescentes e, consequentemente, na qualidade do serviço de segurança pública prestado à sociedade paulista.
Diante desse contexto, o elevado volume de desligamentos registrado em 2025 impõe a necessidade de uma avaliação técnica aprofundada, tanto das causas individuais que motivam os pedidos de exoneração quanto das diretrizes administrativas, disciplinares e de gestão de pessoal adotadas pelo Comando da Polícia Militar.