
A apuração em curso no Departamento de Água e Esgoto (DAE) sobre irregularidades em procedimentos básicos para a compra de peças e serviços de oficina foi para o ambiente policial, com queima de arquivo de documentos e ameaça de morte registrada entre servidores internos. Acionada a respeito da gravidade das consequências e elementos a partir de denúncia levantada no mês passado pela vereadora Estela Almagro (PT), a presidência da autarquia responde que “todas as providências de apuração em sindicância administrativa estão em andamento e medidas administrativas” estão em curso para a correção de procedimentos e rotinas.
Fomos a campo. O caso trazido a público, na origem, em postagem da rede social da vereadora Estela Almagro ‘descamba’ para agravantes. Além disso, informações agora apuradas pelo CONTRAPONTO também indicam necessidade, urgente, de revisão na gestão, controle e monitoramento de procedimentos administrativos no DAE. Mais que isso. A denúncia de irregularidades em contratação de serviços de oficina (da frota do DAE) é o ponto de partida. Mas os fatos pedem ampliação da apuração também sobre controles de estoque, compra de peças e outras ações. Há evidências de falhas no controle de entrada e saída de itens adquiridos para abastecer a demanda da oficina. Durante a apuração do caso, identificamos suspeitas de compras de componentes sem que seja possível comprovar a instalação em veículos. Por exemplo: o DAE compra pneus e o caminhão informado no registro continua com “pneus carecas”.
Também identificamos falta de controle (registro formal) de diversas peças. O curioso é que o DAE identificou um cômodo com uma variedade de componentes para veículos onde, até aqui, não foi localizado o controle interno. Seria um “estoque paralelo”?
A suspeita veio na sequência do início da apuração pelo CONTRAPONTO. Um contato anônimo, um dia após divulgarmos que o presidente do DAE João Carlos Viegas acolheu solicitação da Corregedoria e afastou 4 servidores para evitar interferência na apuração da denúncia relacionada ao serviço de freio realizado na oficina da Vila Engler, situou que ocorrera queima de arquivo, com apreensão de restos de documentos no fundo do Centro de Manutenção, no Jd Ouro Verde.
Apuramos o registro de boletim de ocorrência com apreensão do material e entrega junto à Polícia Civil. Um reeducando confirma a informação de que dois servidores (entre os 4 afastados preventivamente) teriam participado da tentativa de “queima de arquivo”. Junto a fontes da ‘rádio-peão’ obtivemos que os ex-diretores Renato e Jorge foram citados.
Apuramos que a queima de documentos administrativos do DAE foi realizada na sexta-feira, próximo da hora do almoço. O desligamento de 4 servidores, noticiado pela reportagem horas depois, confirmava o apurado. E, de outro lado, revelava a medida administrativa de preservação interna dos fatos. Além dos diretores Renato e Jorge, a autarquia afastara Leandro e Aparecido. A repercussão interna e nos bastidores já “fervilhavam” quando Aparecido (que foi diretor de serviços por 11 anos) pediu exoneração.
Apuramos que a Polícia Civil realiza perícia nos fragmentos dos documentos queimados. Comentários por “olheiros” da fogueira criminosa remetem a indícios com número identificado de processos de compra, entre outros elementos…
Também identificamos que o suposto “estoque paralelo” foi lacrado pelo comando do DAE.
SEM FREIO
Na origem, nossa apuração detalhou a publicação na rede social de Estela Almagro, de 9 de janeiro deste 2026. No vídeo, a parlamentar expõe – em conversa com um mecânico em oficina na Vila Engler (perto da Vila Vicentina) – que o DAE realizou serviços de mecânica para a frota onde a cotação é realizada pelo próprio fornecedor, contrariando regras básicas, legais.
Na conversa, também está divulgado que o prestador de serviço reclama que “fez o freio dos dois eixos traseiros do caminhão 239” da frota do DAE, mas não recebeu pelo serviço. Ele conta à vereadora, no vídeo, que já prestou vários serviços de oficina para a autarquia. Mas não estava mais disposto a “gastar tempo” indo (ele) atrás de cotações.
No caso originário, por volta de setembro de 2025, como em outras ocasiões, o mecânico fez o orçamento e realizou o conserto dos freios do caminhão. Na mesma gravação, ele entrega para Estela print de seu telefone celular imagem e informação de ligações de um homem da empresa chamada Star Tractor, de São Paulo, pedindo para que ele emitisse nota fiscal para ela (Stracor) pagar pelos cerca de R$ 1.300,00 em aberto junto ao DAE.
Mais adiante, percebemos que o mecânico prestou um serviço inicial. E, depois, fez a outra parte. Mas o pagamento “acumulou”, passando do limite para verba de adiantamento. Houve troca na diretoria do setor, no mesmo período. E a conta “ficou” pendurada.
NO RASTRO
Partimos para buscar elucidar a dúvida pertinente, inicial, de Estela: por que uma empresa com sede lá em São Paulo liga aqui em Bauru para uma oficina em específico pagar por serviço de troca de freio de caminhão oficial do DAE? Não faz sentido.
A pista inicial estava no print da imagem abaixo entregue pelo mecânico da Vila Engler que reclamava não ter recebido pelo serviço que prestou. Um dos proprietários, ele traz que a empresa Star Tractor, da Capital, ligou para pagar.

Na necessária pesquisa eletrônica da empresa confirmamos endereço (av. Corumbaíba, SP), contrato social, sócios e demais dados elementares.
A segunda pista veio após visita ao mecânico. Mesmo já sob a esperada postura refratária a partir da divulgação da denúncia levantada por Estela, ele forneceu indicações cruciais para avançar a investigação jornalística. Preservamos aqui o mecânico. Ele é um prestador de serviço que, na origem, reclamou por não receber pelo serviço que prestou. Além disso, anotamos que ele não percebeu que nossa visita mostrando interesse em conserto de freio era apenas argumento para levantar mais informações.
A conversa informal rendeu. Levantamos que a voz do interessado em pagar pelo serviço de freio do caminhão 239 era de alguém conhecido de outros “atores” do segmento em Bauru. Outra observação importante para o público: o DAE tem oficina própria! Há décadas! Então por qual razão contrata uma oficina para trocar lona de freio de caminhão? Entenda isso mais adiante.
A terceira pista veio de contatos. Ao garimpar fontes na chamada rádio-peão (como os colaboradores do DAE falam sobre o que circula entre turnos e galpões) registramos que a Star Tractor tem presença em Bauru. E de outra conversa, em um botequim, surgiu que a pista estava no Jardim Bela Vista. Publicamos uma nota, na rede social, com esta “isca”. Perguntamos por firnecedores de peças e serviços de oficina entre servidores operacionais. Deu certo!
Chegamos à Rua Boa Esperança, no Jd Bela Vista. Lá funciona uma empresa vendedora de itens automotivos, a Ferrarini. E o que isso ajuda na apuração? Uma visita a uma residência e outra conversa nos arredores foi suficiente para checar que a empresa de peças tem registro na Junta Comercial com o mesmo endereço da Star Tractor, na Capital.
Um passo a mais foi cruzar o nomes dos sócios, administradores. Proprietário e esposa aparecem nos registros. Estamos preservando o nome de todos, mesma da fornecedora de peças. Sem abrir mão da menção de que, com a reportagem, espera-se que a Polícia Civil e ou DAE elucidem junto ao interlocutor a razão de alguém querer pagar o mecânico no lugar da empresa pública. Um ‘favorzaço’ que não combina com o episódio.
AÚDIO
Até então, porém, não estava claro o contato entre alguém da Star Tractor ou Ferrarini interessado em pagar pelo serviço de freio que o DAE deixou em aberto lá na oficina da Vila Engler.
Seguimos levantando. Até que outra pista foi suscitada. Na lista de pregões eletrônicos de peças realizadas pelo DAE próximos do período do episódio da lona de freio na Vila Engler, no ano passado, está o registro 12/2025. O processo aberto em março (número 7226/24) não está no site do DAE. Apenas a divulgação inicial do edital.
E, após dias, foi exatamente a curiosidade para esta lacuna que trouxe outra informação. A filha dos proprietários das empresas da Bela Vista (com registro comercial em São Paulo) é a representante na ata de registro de preços. Então confirmamos, em visita, que as citações recaem para o mesmo endereço residencial, na Rua Boa Esperança. Estes dados foram suficientes para se chegar ao ‘dono da voz’ que ligou para a oficina da Vila Engler, cruzando esta checagem com o que os servidores implicados já comentavam após a história do não pagamento à oficina na Vila Engler circular nas conversas entre servidores.
A esta altura, uma conversa de 8 de janeiro foi a “cereja do bolo” para montar o quebra-cabeça das relações do caso. Aparecido e Renato (Jorge) falam sobre a necessidade de resolver a pendência com o conserto dos freios do caminhão 239 da frota do DAE.
CEI DAS PEÇAS E OFICINA
A vereadora Estela Almagro, na sessão da “quinta-feira” de cinzas do pós Carnaval, discursou, na tribuna, pela necessidade, a esta altura, de apuração através de Comissão Especial de Inquérito (CEI) acerca das irregularidades visíveis na contratação de serviços de oficina pelo DAE assim como na verificação de compra de peças.
O não pagamento de um serviço simples de freio no caminhão 239 abre um leque de falhas de gestão em compras, controle de almoxarifado e de rotinas na oficina do DAE que exigem ‘pente-fino’. Servidores comentam abertamente que o “buraco é mais em baixo”…
- apesar de ter oficina própria, o DAE contrata oficinas para serviços complementares. Para trocar os freios, por exemplo, uma oficina convidada para realizar a cotação de preços (e com isso garantir o “menor valor”) ajusta o sistema (dá um ‘passe” na lona nova como dizem os mecânicos), arrebita o componente e o entrega.
- na oficina própria, o DAE desmonta o componente, leva para a oficina terceirizada dar o passe e arrebitar e depois recoloca no caminhão. É evidente que a apuração tem de ampliar a verificação sobre outros serviços, em várias frentes, de troca de rolamentos a consertos em sistemas de suspensão, caixa de direção, motor…
- a assepsia e reestruturação, por óbvio, também não pode esquecer de comparar, oficialmente, nas melhores casas do ramo, diferenças entre preços de peças (no original e paralelo). É construtivo sugerir que a Controladoria Interna, se não souber, busque conhecimento desde bobinas de máquinas a amortecedores e óleo de motor, câmbio.
- A apuração também tem de elucidar como é feita a pesquisa de preços de peças, conforme determina a regra de atas. E, claro, a esta altura, por precaução, verificar a autenticidade de orçamentos já realizados. Muita coisa não foi queimada.
- todas essas frentes exigem revisão imediata pela Controladoria Interna do DAE. Rotinas, controle de entrada e saída de serviços e estoque são falhos. Há anos!
- este não é o.primeiro indício de erros básicos de gestão interna. Há registro de sumiço de grande quantidade de fios durante trajeto dos rolos por um caminhão do DAE. Divulgamos, na ocasião, que o DAE teve de recomprar os cabos para instalar em poços, como na unidade da praça Portugal.
- a gravidade da denúncia em torno do caso inicial sobre a oficina na Vila Engler ainda inclui registro, com servidora como testemunha, de ameaça contra outro servidor.
- o DAE ainda precisa, urgente, mudar a “regra” de adiantamento em dinheiro para pequenas despesas. Os registros indicam, por exemplo, que um veículo pode dar entrada em oficina de fora para trocar o freio em um eixo mas, na hora de checar as outras rodas, o mecânico levantar que precisa ‘trocar nas 4’.
- o adiantamento no DAE para serviços permite realizar duas vezes despesa com valor de até R$ 300,00 e 3 vezes para despesa entre R$ 300,00 e R$ 500,00. A regra nem faz sentido. E o problema é o controle frágil das ações.
- assim como no episódio das telhas de alumínio na Emdurb, o caso do DAE também evidencia a necessidade de formar e capacitar servidores sobretudo de base, operacionais, quando estes alcançam funções de comando, onde é necessário o mínimo de conhecimento sobre legalidade e protocolos administrativos.
- a reportagem preserva, ainda, o nome completo inclusive dos servidores afastados até a conclusão do inquérito, sem deixar de apontar a individualização das ações já apuradas que merecem aprofundamento na investigação oficial.
- por fim: esta história não acaba aqui …