Por Gustavo Candido
Há alguns dias, circulou no TikTok o vídeo de uma embarcação em chamas que – segundo a legenda – era de um “navio da COP30” em Belém, no Pará, onde será realizada a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas.
O Fato ou Fake, serviço de checagem de autenticidade das notícias do Grupo Globo verificou a origem do vídeo e identificou que se tratava de uma imagem falsa, com 95% ou mais de chances de ter sido criada com o uso de Inteligência Artificial.
Casos como esse se tornaram parte do nosso cotidiano. Notícias falsas, boatos e conteúdos manipulados se espalham com a mesma rapidez — e com efeitos igualmente perigosos — de um vírus biológico. E essa “doença” que é a desinformação não apenas confunde, mas também orienta decisões, forma opiniões e pode colocar vidas em risco.
Por isso, o tema segue merecendo atenção e a pergunta essencial da nossa era continua sendo: como saber se uma informação é verdadeira ou não?
Por que “desinformação” e não simplesmente “fake news”?
Para começar, é preciso – sem querer ser muito acadêmico – definir os conceitos e usar as palavras certas para descrever as coisas. A professora britânica Claire Wardle e o jornalista iraniano Hossein Derakhshan escreveram em 2017 uma obra que é a base para as discussões sobre o tema. Segundo os pesquisadores, a ideia de “notícia falsa” (ou “fake news”, termo que o presidente americano Donald Trump popularizou) é simplista demais no contexto da desordem informacional tão comum hoje em dia e que eles separam em três tipos.
Então quando escrevo desinformação, estou me referindo à produção e disseminação deliberada de informações falsas, imprecisas ou manipuladas com a intenção de enganar o público, gerar confusão ou obter algum tipo de vantagem política, econômica ou social.
Ela se distingue do segundo tipo, a má-informação, que ocorre quando uma informação verdadeira é usada de forma descontextualizada para causar dano, e do terceiro tipo, a informação incorreta, que é o compartilhamento involuntário de algo falso — quando alguém acredita ser verdade e repassa.
Portanto, a desinformação é um ato intencional, planejado para influenciar percepções, manipular comportamentos e distorcer a realidade. Ou seja, para nos enganar. Quando alguém se dá ao trabalho de criar um vídeo falso sobre algo que não está acontecendo e ainda coloca uma legenda como se estivesse nos informando, a pessoa quer que acreditemos em uma mentira por alguma razão, concorda?
Por que a desinformação é como um doença
O perigo da desinformação não está apenas no conteúdo em si, mas em seu poder de contaminação social. Assim como um vírus, ela se espalha rapidamente, encontra terreno fértil na emoção humana — especialmente medo, indignação e raiva — e se multiplica nos ambientes digitais que valorizam mais o engajamento do que a verdade.
Um famoso artigo publicado na revista Science, em 2018, traz o resultado de pesquisas que apontam que notícias falsas se espalham até seis vezes mais rápido do que as verdadeiras nas redes sociais. Isso acontece, de acordo com os autores, porque o conteúdo falso costuma ser mais apelativo, surpreendente e emocional.
A desinformação mina a confiança nas instituições, distorce processos democráticos, polariza a sociedade e coloca vidas em risco, como se viu durante a pandemia de Covid-19, quando boatos sobre remédios milagrosos e teorias conspiratórias contra vacinas custaram tempo, recursos e, em muitos casos, vidas humanas.
Além disso, ela gera um efeito corrosivo sobre o debate público. Quando tudo parece duvidoso e cada um “tem a sua verdade”, o espaço para o diálogo racional desaparece. O resultado é uma sociedade fragmentada, em que fatos deixam de unir e passam a dividir: de um lado ficam os que enxergam a verdade e, do outro, os que acreditam em mentiras e realidades “paralelas” e ficam presos a elas porque não olham para fora de suas bolhas.
Como identificar informações falsas online
Saber distinguir o verdadeiro do falso é, hoje em dia, essencial para entender o mundo, tomar decisões, avaliar os fatos. Embora não exista uma fórmula mágica, há um conjunto de práticas simples que nos ajudam nessa tarefa. Confira:
1 – Desconfie do impulso emocional
Se uma mensagem desperta raiva, medo ou euforia imediata, pare. Essas emoções são o combustível da desinformação. Antes de compartilhar, pergunte-se: “Isso me parece plausível?” e “Por que estão querendo que eu acredite nisso?”.
2 – Verifique a fonte
Quem publicou a informação? É um veículo jornalístico reconhecido? O texto tem autoria identificada? Desconfie de conteúdos sem assinatura, com URLs estranhas ou com erros de ortografia. Pesquise o nome do site — muitas vezes basta uma busca rápida para descobrir se ele é confiável ou já foi denunciado por espalhar notícias falsas.
3 – Procure outras versões da notícia
Se algo for verdadeiramente relevante, outros meios de comunicação também estarão noticiando. Busque o mesmo tema em portais diferentes, de linhas editoriais diversas. A convergência entre fontes é um bom indicativo de veracidade.
4 – Cheque imagens e vídeos
Conteúdos visuais são os mais manipuláveis. Use ferramentas como o Google Imagens ou o TinEye, para, através de uma busca reversa (quando você faz o upload de uma imagem), verificar se a foto foi tirada de outro contexto. Vídeos também podem ser recortados ou editados para distorcer falas e situações.
5 – Observe a data e o contexto da informação
Notícias antigas frequentemente reaparecem como se fossem atuais. Isso é desinformação disfarçada. Antes de reagir, olhe a data de publicação e veja se o conteúdo faz sentido no contexto presente.
6 – Desconfie de mensagens “reenviadas muitas vezes”
Nos aplicativos de mensagem, esse aviso é um alerta claro de que o conteúdo circulou demais e, portanto, merece ser investigado. Muitas correntes e “denúncias urgentes” não passam de boatos reciclados.
7 – Use agências de verificação
No Brasil, organizações como a Aos Fatos, Lupa, Estadão Verifica, Fato ou Fake e Boatos.org, entre outras, trabalham exclusivamente com checagem de informações. Consultá-las é uma maneira prática de confirmar ou desmentir algo rapidamente.
8 – Não compartilhe se não tiver certeza
O ato de compartilhar é, muitas vezes, o elo mais forte da cadeia da desinformação. Mesmo que pareça inofensivo, repassar algo sem checar contribui para espalhar o engano. Muita gente costuma publicar qualquer coisa escrevendo “não sei se é verdade”, como se isso fosse um atestado de isenção. Não é!
Imagine que alguém saia por aí falando que “não sabe se é verdade”, mas “ouviu dizer” que você é um estelionatário. Essa pessoa é responsável por espalhar essa informação ou está isenta de culpa porque avisou que não tinha certeza do que estava dizendo?
Tenha coragem de não fazer parte da sujeira!
Não abdique da verdade
Em um mundo onde qualquer pessoa pode publicar qualquer coisa a qualquer momento, é preciso estar atento a todo momento para não se distanciar da verdade.
Ser crítico, checar fontes e duvidar de informações convenientes pode ser cansativo, mas é necessário. Uma sociedade desinformada é uma sociedade manipulável. Portanto, antes de clicar em compartilhar, lembre-se: a informação é poder, mas só quando é verdadeira. Quando não é, é só ilusão que uma hora desaparece.

Bom dia!
Parabéns, Gustavo pelo texto didático e claro, este vou compartilhar, com certeza!!