100 mortos por Covid no Pronto Socorro em apenas 3 meses deste ano e outras 840 nos hospitais de Bauru desde março de 2020

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Samira, 35 anos, não quer foto de capa. Mas não abre mão de contar detalhes do drama que ainda vive com a mãe, internada na UPA do Popular Ipiranga a espera de uma vaga para cirurgia no punho quebrado, há cerca de duas semanas. O áudio do desabafo da bauruense, em conversa com a cunhada Érica, ganhou as redes sociais nesta quinta-feira (10/06/2021). Ao Contraponto, ela descreve o que muitos, ainda, não acreditam: o vírus Covid leva cada vez mais pessoas às Unidades de Saúde e mata muito mais, agora, do que no início da pandemia.

Nesta quinta, Bauru chega ao registro de 100 mortes de pacientes atendidos no Pronto Socorro (apenas de março deste ano até hoje), enquanto aguardavam a chance de tentar sobreviver em uma vaga de UTI junto ao Estado. São 940 óbitos no total desde o início da pandemia.

O sistema de saúde público salvou muitos. Mas a situação é de caos! Não fosse o atendimento SUS, os que mais precisam estariam em enfrentando drama ainda pior. Todos falhamos, de algum modo… o poder público, os sistemas de controle, empresários, jornalistas, comerciantes, você, eu, nós….

De outro lado, há semanas, o poder público acompanha salas de atendimento lotadas, com pacientes com suspeita de Covid juntos com outras enfermidades, no mesmo espaço. Unidades com deficiências em manutenção (infiltração, ar condicionado sem funcionar, mobiliário quebrado), esgotamento dos profissionais, falta contínua de médicos a plantões (mesmo sob contrato de pessoa jurídica através da Fundação de Saúde)…

O sofrimento enfrentado por Samira está muito além da angústia no suporte à sua mãe.

Na entrevista (veja áudio de 10 minutos no link acima), ela descreve o terror que enfrentou na noite passada, na UPA Ipiranga. Acompanhou a mãe, no corredor, com o punho quebrado, levou empurrão de uma paciente com esquizofrenia, viu um senhor de cerca de 80 anos sair do atendimento com ajuda de ventilação respiratória (semi-entensivo) ser acomodado junto com quem está diagnosticado com outras doenças, ajudou uma mulher com fratura no fêmur a ir ao banheiro várias vezes, atendeu a pedido de pacientes para checar o soro…

A madrugada de Samira no PS, infelizmente, ainda teve testemunho da morte de uma senhora que aguardava suporte respiratório há horas, mas não havia equipamento disponível naquele plantão. Ela assistiu a uma moça que, ao ter piora em seu quadro, teve a “sorte” de ocupar a vaga do ‘balão de oxigênio’ da senhora que não resistiu.

Viu, assistiu, testemunhou: “o dia mais frustrante de minha vida porque enquanto tentava proteger minha mãe no corredor, vi quem chegou andando não resistir em poucas horas”.

FATOS

Não há vagas UTI para Covid em todo o sistema público hospitalar de Bauru e região. O infográfico a seguir apresenta as principais informações do sistema. Desde o início do ano Bauru vive a situação de colapso definida pelo próprio governo estadual. Mas a cidade continua com a oferta dos mesmos 70 leitos UTI pra Covid há meses, sendo que 10 destes só foram instalados recentemente por força de decisão judicial.

A Prefeitura prossegue com o atendimento de retaguarda no Pronto Socorro, mas sem conseguir ampliar a oferta de serviços neste período. A fila de espera por UTI e, também, para outras doenças continua em crescimento.

Nos bairros mais pobres, viraliza nas redes conteúdos falsos que geram medo de muitos à vacinação. Com dinheiro em caixa, a Prefeitura demora para tomar medidas de gestão que nem dependem da autorização de despesas significativas, como o atendimento separado de pacientes com suspeita de Covid em Unidades específicas.]

A superlotação e o aumento da contaminação volta a colocar sob alerta a capacidade do sistema público de saúde de ofertar insumos essenciais ao tratamento intensivo. A Diretoria Regional de Saúde (DRS-6) recebeu repasses do Estado para comprar drogas (anestésicos potentes, etc.), mas enfrenta dificuldade na entrega por fornecedores ou a exigência de preços exorbitantes para o cumprimento de novos contratos.

Do Ministério da Saúde, a reposição de estoques de insumos da cota ainda não repôs a deficiência levantada em setembro do ano passado. De outro lado, o governo federal credenciou o custeio de 8 leitos (de retaguarda) no Pronto Socorro, mas não está autorizando a habilitação para pagamentos de leitos UTI em hospitais de campanha (como o HC).

Bauru alcançou, nesta quinta, 109.834 pessoas imunizadas com a primeira dose. Mas apenas 58.916 com a segunda dose. (Tem gente quem não quer se vacinar porque acredita em mentira sobre os efeitos do imunizante espalhado nas redes por irresponsáveis).

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