A língua é minha pátria…

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Por Adalberto da Silva Retto Jr.

E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!
Caetano Veloso

A citação Minha Pátria é minha língua, da canção Língua de Caetano Veloso, com marcante interpretação do cantor e de Elza Soares, remonta a um poema da obra O Livro do Desassossego de Bernardo Soares. No referido poema a noção de pertencimento não está ligada à nação, à pátria como um território, mas à língua, que se coloca como referência maior do sentimento nacional.
Há quase 25 anos, algumas publicações no mundo começaram a abordar questões relativas ao tema do “sexismo”. Discutiam a igualdade de oportunidades entre mulheres e homens, e “recomendavam” a alguns países um uso não sexista das línguas, já que uma análise de livros didáticos e meios de comunicação de massa destacava a clara prevalência do gênero masculino sobre o feminino. A análise considerou também o uso do chamado masculino neutro, ou masculino usado com dupla valência, na ausência de uma forma neutra na gramática latina.
Seguindo o raciocínio do poema supracitado, portanto, pode-se afirmar que por meio da palavra tanto o indivíduo quanto a comunidade se definem, se autorrepresentam, se identificam com um grupo e não com outro, e são capazes de reconhecer os limites de seu “pertencimento”.
À luz de tais considerações e à luz das grandes pautas políticas que estão se afirmando, a linguagem pode e deve representar a complexidade da sociedade?
Recentes acontecimentos levaram-nos a identificar as fronteiras que deveriam ser derrubadas. Certamente, a primeira dessas fronteiras é a de gênero. Basta colocarmos a seguinte pergunta: posso identificar (e expressar) minha identidade de gênero na atual linguagem que uso? Fatos sociais e políticos relacionados à questão de gênero têm muitas vezes suscitado reações de considerável aborrecimento e nervosismo (e as redes sociais são a confirmação diária disso).
Quando o tema do gênero volta-se para a linguagem e seus usos, a resistência, mesmo que apenas para contemplar uma mudança de hábitos linguísticos, se amplia, porque o que se quer é continuar falando e escrevendo como sempre se fez, negando, porém, a importância do valor identitário da língua.
Afinal cada vez mais não são apenas os gêneros tradicionais masculino e feminino, mas também os gêneros não binários e até o chamado gênero fluído. Como seria pensarmos em uma linguagem mais inclusiva? Uma linguagem que, ao invés de ratificar os estereótipos do sexismo linguístico, enfatizasse a coexistência das diferenças? Existem categorias para definir-se linguisticamente?
Finalmente, que tipo de língua falamos ou devemos começar a falar? Como indaga Caetano Veloso na canção mencionada: O que quer, o que pode esta língua?
Na atual conjuntura política em que vivemos, falar pode parecer um pouco como respirar: uma função vital, da qual raramente temos consciência ou à qual prestamos atenção e que, pouco a pouco, é tida como óbvia e automática. Mas dentro desse cenário, para que serve a língua? Existem pelo menos duas funções principais que é preciso enfatizar: definir a si mesmo e descrever o mundo externo, as coisas, pois cada palavra que escolhemos e não usamos diz algo sobre o que somos e o que não somos. As palavras colocam-se assim como atos de identidade que, portanto, estão relacionadas ao existir, à linguagem, ao gênero e à inclusão linguística.
Ora, não bastaria retornar à gramática para trazer a discussão de volta ao rastro de uma reflexão serena e fecunda? Na gramática, considerando os quatro tipos de relação entre masculino e feminino, quase sempre é possível derivar o feminino: macho-fêmea, boi-vaca (gênero fixo); o professor (gênero comum); o antílope para ambos os sexos (gênero promíscuo); gato-gato, professor-professor, leitor-leitor (gênero móvel).
Ou seja, o debate em torno da questão de gênero na língua deveria ser menos acalorado e polêmico. De fato, como afirmam alguns especialistas, línguas de grande cultura, nas quais textos de máxima complexidade podem ser escritos tanto no campo científico quanto no humanístico, contêm todas as ferramentas para serem usadas de maneira não sexista.
Agora, se em nossa língua temos quase tudo o que precisamos para ser falantes/escritores inclusivos e não sexistas, dando voz – por exemplo – à população feminina, por que isso não acontece ou acontece tão pouco?
Para que uma linguagem seja mais inclusiva e permita que todos os gêneros se definam é necessário um processo de conscientização: em nível individual é preciso mudar os hábitos e, coletivamente, os estereótipos. Mesmo os de linguagem visual, por exemplo, com imagens.
Especialmente em ocasiões formais, pode ser apropriado recorrer pelo menos à menção dos dois gêneros (“senadoras e senadores “,” senhoras e senhores”), mas o mais importante parece ser não transmitir sorrateiramente (por meio de livros escolares, por exemplo) imagens e situações ligadas à supremacia masculina ou à rigidez dos papéis sociais. No que diz respeito aos estereótipos puramente linguísticos, não se trata de modificar a norma linguística para uma maior inclusão, mas sim de fazer usos mais inclusivos penetrarem na linguagem normatizada e cotidiana.
Provavelmente já está no debate a semente que pode gerar diferentes usos linguísticos, porque as próprias palavras auxiliam a explicitar pedidos iguais, inclusivos, feministas ou o que for. Também não é certo dizer que as palavras não têm relevância: elas têm a vantagem de chamar a atenção para o tema, já que existe uma correlação entre sociedade, cultura e língua.Os sociolinguistas explicitam que, na ausência de uma escuta mútua, de uma mente aberta em relação ao ambiente do entorno, todo ato linguístico só pode ser puramente performático, desprovido daquele espírito gerador que deveria nos apoiar na busca por uma convivência pacífica e recíproca entre diversidades.
Em outras palavras, só assim o termo “inclusão”, que só é necessário quando há exclusão, pode ser abolido, porque o que existirá, então, será uma cultura de convivência entre as diferenças.
Se a reflexão sobre uma linguagem mais inclusiva é não só legítima mas também necessária, o ponto-chave é compreender quais os meios pelos quais as diversas demandas da sociedade podem ser aceitas concretamente. Se por um lado a linguagem nos fornece o aparato necessário (pense novamente nas formas femininas das profissões), por outro – como usuários – podemos expandir essas expressões por novos caminhos e formas?
Que este é um momento de reflexão sobre questões de gênero, com o acalorado e inequívoco debate, é fato inquestionável. E também inconteste é o fato de que não se sabe quais serão os resultados desse debate e desta reflexão. Assim, é possível chegarmos a uma situação ótima em que a identidade de gênero não seja mais causa de discriminação e, talvez, todos juntos possamos retornar ao masculino, porque não será mais necessário reafirmar a própria existência (também) através de um protesto linguístico. Mas, no momento, a busca pela existência e pela visibilidade, por meio da língua, ainda é sacrossanta.
O autor
É: professor na Universidade Estadual Paulista – Unesp Bauru. Foi Professor-pesquisador Visitante no Master Erasmus Mundus TPTI (Techiniques, Patrimoine, Territoire de l’Industrie: Histoire, Valorisation, Didactique) da Universitè Panthéon Sorbonne Paris I(2011-2013). Possui Pós-doutorado no Istituto Universitario di Architettura di Venezia Italia (2007); Doutor pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e pelo Departamento de História da Arquitetura e Urbanismo do Instituto Universitario di Architettura di Venezia (2003).

2 comentários em “A língua é minha pátria…”

  1. Beauvoir, em 1949, ao publicar seu livro O Segundo Sexo, provoca o frenesi acerca da ideologia de gênero e do papel da mulher na sociedade, questionando, até mesmo, a utilização do termo “os homens” para designar os seres humanos, em uma representação positiva e neutra; enquanto, por “mulheres”, associam-se ideias negativas que lhes são imputadas a noção de limitação, sem reciprocidade. Dá-se aí, a escolha pelo título do livro, ao provocar os padrões terminológicos apregoados em uma sociedade masculina que cunhou positividade ao que é masculino, neutralidade ao que é do humano e negatividade ao que é feminino. A partir dessa inquietação, a autora identificou a mulher como “o outro”, em uma reação ao que não é representativo.

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