
O campus da Universidade de São Paulo (USP) em Bauru é palco de duas ações que mostram o paradoxo na concepção das prioridades acadêmicas financiadas com dinheiro público. O mesmo campi onde estudantes de medicina se reuniram para cobrar melhorias físicas, além de acadêmicas, nesta semana, é o local onde a gestão da USP decidiu utilizar pouco mais de R$ 8 milhões para derrubar o campo de futebol para instalar quadras esportivas e ações complementares.
A nota do CONTRAPONTO sobre a obra levou a Prefeitura do Campus a defender que a despesa é fruto de consulta junto a alunos e servidores, sem levar em conta que a questão central é para muito além da relação custo-prioridade.
Primeiro porque nem precisava a ambientação da greve estudantil de hoje para se indagar sobre o histórico de despesas sem uso (por mais de década) pela USP no campus. A obra do Predião levou anos. Dinheiro público! Obra cara e obra inacabada para além de 10 anos. No Predião, o histórico ainda contou com resserviço. O telhado foi “refeito”. Até hoje o local é utilizado parcialmente.
Mas parte da elite da comunidade universitária não gostou da associação do site. Coincidência ou não, poucos dias depois, enquanto as máquinas derrubavam o gramado na àrea do campo de futebol – na “primeira parte” da obra de pouco mais de R$ 8 milhões – estudantes fixavam cartazes cobrando investimentos, por exemplo, para sede definitiva para a Faculdade de Medicina. E indagamos: prioridade?
O contribuinte não está apto a entender que cada unidade tem sua ação orçamentária. É tudo no mesmo campus. Uma peleja de contradição sobre prioridade de gestão e custo-benefício. Esta é a questão inicial. Até por que a fonte de custeio continua sendo a fatia da receita do ICMS para o grosso dessas ações.
E não é só isdo. E o custo do campus Bauru rendeu debate acalorado quando da instalação da Faculdade de Medicina – exatamente pelo elevado valor por aluno, no comparativo da ocasião da criação de mais uma unidade. Participamos da reunião do Conselho Universitário na época.
ESTUDANTES
Agora o tema se expõe em outra face. Quase dois anos e meio após a criação, a FMBRU continua sem prédio próprio. Os espaços físicos que a unidade utiliza são cedidos pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP), onde o curso de Medicina local foi instalado em 2017.
O quadro com 84 funcionários continua muito abaixo de “irmãs” da própria USP, como a Faculdade de Medicina (FM) com 401, e a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), com 418 colaboradores. Dados trazidos pelo movomento, hoje.
Conforme notícia do movimento, a graduação, lembra o Centro Acadêmico em nota à imprensa, “é essencial tanto para a formação de médicos qualificados quanto para o atendimento à população, já que os estudantes participam da rotina dos serviços e contribuem para a assistência, especialmente o internato, etapa prática que corresponde aos dois últimos anos da graduação em Medicina”.
Eles cobram espaço para dialogar e também reivindicam “melhor organização da preceptoria, ou seja, do acompanhamento realizado pelos médicos e demais profissionais dos serviços que orientam os alunos durante a prática, além da ampliação dos campos de estágio em Bauru”.
Parece simbólico, mas não é: parte da comunidade uspiana ainda não entendeu (ou não aceita ver) que os mesmos bauruenses que cobram pertencimento (com alunos da escola pública dentro das unidades de saúde) questionam sim a prioridade em gastar milhões de Reais (verba pública) em mudanças na àrea esportiva para satisfazer muito mais para dentro do que para fora de seus muros – quando outras prioridades ficam na fila…