Covid: outubro será de número elevado de casos, diz Saúde

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A pandemia de coronavírus em Bauru tende a manter elevado número de casos durante todo o mês de outubro. Esta é a avaliação da Secretaria Municipal de Saúde. Com quase 11.000 registros da doença confirmados por exames especializados de biologia molecular digital (RT PCR), a Covid-19 em Bauru soma 187 óbitos (desde 20 de março) e uma média diária de novas transmissões de 150 casos, nesta semana, conforme o comitê municipal.

Esta reportagem vai poupar o eleitor de discutir causas e ocorrências da doença, até aqui. O objetivo – específico – desta matéria é lhe prestar o seguinte serviço: por quanto tempo a contaminação do vírus ainda vai permanecer com números elevados entre os bauruenses?

Delimitado o foco, o diretor da Divisão de Vigilância Epidemiológica, Ezequiel Santos, avalia: “A situação é muito preocupante. O número diário de casos era de 100, há duas semanas, e passamos para cerca de 170 nos últimos dias. O vírus está presente em larga escala em todos os pontos da cidade. Nossa projeção é de que vamos conviver com esse elevado índice de contaminação ainda por um pouco mais de um mês. Outubro, com certeza, será um mês nesse mesmo patamar elevado. Infelizmente muitas pessoas acham que a doença já se foi e ela está presente”, aponta.

Se fosse por critério especificamente epidemiológico, a medida correta (há semanas) seria fechar. “Do ponto de vista epidemiológico o número de casos das últimas semanas exigia sim fechar. Mas lidamos com a situação dos índices e dos problemas com a economia. Mas se a população continuar não tendo nenhum cuidado nós corremos sérios riscos de não termos como internar pacientes graves, porque a ocupação do HE para UTI Covid está há semanas acima de 95% (no sábado fechou em 98%, com 55 leitos com pacientes graves ocupados para um total de 56 unidades disponíveis)”, explica.

COMO VER OS DADOS

Ezequiel Santos explica que o número de casos em Bauru aumentou 7,4%, na comparação entre a semana passada dos casos móveis (média de 7 dias) e o desta semana. Ou seja, Bauru saiu, segundo o diretor, de uma média de cerca de 140 casos por dia para 170 casos.

“O aumento significa que estamos em patamar muito elevado, ainda sem tendência de início de queda. Para cair ainda teremos um longo caminho pela frente. As pessoas precisam entender isso”, aponta.

Já em relação a óbitos, o aumento foi de 17%, no mesmo comparativo. “Saímos de 1,2 para 1,7 mortes por dia para 2,0 mortes nesta semana. O aumento de 17% confirma nossa preocupação. O vírus, insisto, está circulando por toda a cidade. A propagação é muito fácil e rápida nesta situação. O Hospital Estadual continua lotado e as UPAs têm recebido cada vez mais pacientes. E o pior: aumenta o número de pacientes em estado grave”, menciona.

Diretor da Saúde Coletiva faz balanço de seis meses

Veja, por tópicos, a avaliação de Luiz Cortes, da Secretaria Municipal de Saúde e diretor da Divisão de Saúde Coletiva.

                                                                     Luiz Cortes, diretor da Secretaria Saúde

FERRAMENTAS DE COMBATE

A base do sistema de prevenção da Covid-19 é a higiene pessoal, lavar as mãos com frequência, usar máscara, manter distanciamento social e não gerar aglomeração. A testagem é um acessório dentro dessa rede de ações, assim como a fiscalização. As pessoas confundem um pouco. Acham que testar é solução milagrosa. Ah, todos em casa já estão testados e está tudo bem. Não!”

TESTAGEM: RETRATO DO MOMENTO

“A testagem mostra o que já aconteceu. Daquele momento pra traz. É claro que com os testes rápidos de segunda geração diferenciam o IgG IgM (anticorpos) e você tem ao menos uma noção de quando foi a infecção ao ter um resultado positivo. E isso está atrelado a outros fatores, como o início dos sintomas. Mas veja, nem sempre ele está aparente (assintomático). Se deu positivo em IgM a infecção é recente. Em geral no sétimo dia dos sintomas. Se deu IgG é, em geral, por volta do décimo quarto dia da doença. O teste rápido, portanto, conta o que aconteceu com aquela pessoa. E ai o ideal é entrevistar os contactantes, com quem os contaminados convivem, testar e isolar. Você controla aquele núcleo”.

GRÁFICO EM FORMA DE SINO

“Em todas as epidemias que tivemos, o gráfico assume a forma de um sino. Há o início dos registros, os casos começam a aumentar, o gráfico sobe até um pico, e em geral não tem platô. Os casos caem. Platô é uma ocorrência da Covid, mas que não se deseja em epidemia. Muito menos em pandemia (atinge vários países). E nosso platô, ou seja um período de casos em número elevado, está muito longo. Ou seja, nós conseguimos achatar a curva, em uma determinada fase, mas não achatamos a curva a ponto do platô durar menos tempo. Tanto no Brasil quanto no Estado. Em Bauru também. No País, ficamos muitas semanas com 1.000 casos de mortes diárias. Na Itália foi sino. Teve pico mais rápido e queda. E não há como comparar Itália com o Brasil”.

PREVISÃO PARA BAURU

“A previsão para Bauru, com base nos dados e análises, era de que agora em setembro já começaria a queda, tentando a entrar em outubro em situação mais confortável. Mas ainda estamos no platô, com número de casos diários muito elevado. E estamos analisando com um intervalo de 10 dias entre sintoma, diagnóstico e exame. Nosso pico pelos dados teve o final de junho, início de julho, acentuado. Mas era esperado cair algum tempo depois. Mas teve repique. Se pegar as últimas notificações, temos tendência de queda. Mas temos esses repiques, tivemos o feriado. E temos de ver. Ainda estamos, de fato, com número alto de casos novos. O “R” é o segredo no gráfico. Ele identifica para quantas pessoas o vírus será transmitido. Toda vez que o “R” está acima de 1, uma pessoa transmite para mais de 1. A meta então é buscar “R” abaixo de 1, para derrubar o número de casos diários de transmissão. Isolamento, sem contato e usar máscara e lavar as mãos ajudou a derrubar o “R” ou impedir que ele crescesse muito”.

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O FATOR “Rt”

“Então o “R”, a taxa de transmissão de uma pessoa para outros, tende a cair um dia, com o tempo, em qualquer epidemia. Mas não tem sentido pensar que era só deixar ao natural que isso aconteceria. Seria uma tragédia, com mortalidade muito maior, proporcional ao número de infectados. Se você diminui o número de suscetíveis, você diminui a taxa de contatos, mesmo com estabelecimentos abertos. É o que estamos controlando desde o início, com todas as medidas, na cidade, no Estado e no País. Bauru hoje: estamos com o “R” perto de 1. Então, se mantivermos as medidas de higiene e distanciamento, nós vamos conseguir passar para a fase menos dura. Mas depende de todos! O desafio é controlar esse nível de reaberturas. Se você perguntar para um epidemiologista com base no gráfico de Bauru, do Estado, ele falaria que o ideal era manter tudo fechado até o “R” cair. Mas na economia fragilizada durante tanto tempo isso é impossível. Então a ciência vem para a gestão dessas etapas e o Plano SP usa esses dados junto com a taxa de ocupação de leitos. Tem leito, abre a economia, não tem leito, fecha a economia. E isso vem acontecendo, até que a gente consiga derrubar o “R” abaixo de 1, de forma consistente. Nesse patamar, nós temos que ter 10% da população com contato com a doença para os casos começarem a cair. Estamos nessa fase já. Mas o que não pode é abrir indiscriminadamente porque ai esse percentual necessário para a doença cair de forma consistente muda, aumenta. Por isso o controle passo a passo, a cada 15 dias”.

MONITORAR OS CONTATOS

“Ainda estamos na fase onde é muito importante identificar e monitorar os contatos com quem teve a doença. E mais importante ainda o contato domiciliar. A gente liga. E se a pessoa vive junto e não tem jeito, tem de isolar ela também. Essa estratégia precisa funcionar bem para a gente conseguir achatar a curva. Esta á uma ação que persiste. Outra coisa. O positivo fica isolado a partir da data do início dos sintomas. E os contatos ficam isolados por 14 dias após o último contato com o doente. Ou seja, o contato tem de ficar isolado por mais tempo. É assim que tem de ser. Mas as pessoas não ficam. E este é o problema. Por isso nosso platô não caiu até agora, esticou. E é um processo de convencer as pessoas. Não adianta forçar. Até porque não tem como entrar na casa das pessoas”.

QUAL O CENÁRIO PELA FRENTE?

“É muito difícil fazer previsão quando existem vários fatores agindo sobre a análise. A taxa de contatos é uma dessas variáveis que o gestor não tem em mãos. Se a taxa de contatos se mantivesse naquela mesma situação de um mês atrás, nós já estaríamos com a doença em curva descendente em Bauru. Mas isso mudou muito e por isso não temos o gráfico na forma de sino. Temos de trabalhar agora, junto com a população, para que as pessoas mantenham poucos contatos, mantenham higiene e ai poderemos buscar derrubar a curva. Esse é o desafio”.

SEM VACINA, COMO FICA A ESCOLA?

“Conversamos com o pessoal da Educação e senti que o importante pra eles é ter uma noção de programação para se preparar para o retorno. E tem de novo o fator de alfabetização e o fator econômico, para o setor. E pensar nos pais que estão há seis meses tendo de decidir se mantêm a mensalidade do filho na escola. Eu compreendo toda essa angústia. Ela é nossa também. Mas também temos a preocupação com os alunos em relação à doença. Todos estão convivendo com o dano da pandemia. E seis meses depois estamos discutindo o risco. São duas coisas. O risco de aumentar casos em razão do natural aumento de contatos. Vai mexer no fator “R” que falamos. E tem o risco com a criança. Por mais que a criança tenha resistência maior. O fato é que existe o risco de que alguns peguem a doença e o risco de sequelas, mesmo para assintomáticos. São informações que a ciência ainda vai demorar para dar. Elaboramos manual para ampliar a segurança. Mas no momento não há elementos suficientes para pensar em retorno de aulas na forma tradicional. Por isso, a posição foi por aulas de reforço, nesta fase”.

LEGIÃO DE TRANCADOS EM CASA

(REPÓRTER: Existe uma legião de pessoas, idosos, ou mesmo não idosos mas com alguma comorbidade, que está trancada literalmente, isolada, sem contato com quase ninguém há seis meses e que precisa de cuidados especiais porque terá de ficar mais meses, não sabemos quantos, nessa situação)…

“Você tem toda razão. É uma situação triste, de elevada consequência emocional. Este é um dos motivos que nos leva a cobrar as pessoas que continuem com as ações de higiene e com o distanciamento. Porque só isso é que vai baixar esse fator “R”, ou seja, reduzir nosso índice de casos de transmissão da doença. Se isso demorar muito mais tempo, essas pessoas, que são muitas, ficarão ainda mais tempo isoladas. E já estão completamente isoladas há seis meses. As pessoas precisam pensar nestes. Se sensibilizar com as dificuldades, os sofrimentos deles. Qualquer aumento na intensidade da transmissão na vida lá fora, no trabalho, na festa, você tem o aumento da transmissão para os que estão em casa. O risco aumenta em seguida. É um esforço coletivo que tem de ser mantido assim. Porque é poupar vidas”.

 

1 comentário em “Covid: outubro será de número elevado de casos, diz Saúde”

  1. Fica cada vez mais explícito que a atitude de fechar a cidade prematuramente foi um jogo político do governo do estado e municipal. No momento mais crítico, mais invasivo de contágio, liberou-se o vírus para correr em meio a população. É certo que somos desprovidos de disciplina e que em momento algum respeitariamos de maneira militar o distanciamento.
    “Tá aí”, sigamos!

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