Uma jornada do desperdício do dinheiro público

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Veja a estrutura utilizada para atendimento médico ao autor de tentativa de furto que teve fratura no fêmur em Bauru

A foto desta reportagem é do autor de uma tentativa de furto a uma casa em construção em Bauru. Ele foi pego em flagrante. Caiu do telhado e fraturou o fêmur no episódio. Mas o que você vai ler é como o desperdício de tempo, estrutura, e claro, recursos públicos está escancarado em uma ocorrência policial.

O autor da tentativa de furto foi socorrido em situação de prisão em flagrante, como manda o Código. Mas ao invés de ser apresentado à Vara de Custódia – como acontece nesses casos – precisou ser levado por policiais ao Pronto Socorro. Ele deu entrada no PS no dia 30 de setembro passado, com suspeita de fratura na perna. Guarde esta data: 30/09/2021!

Conforme a autoridade policial, pego no momento em que tentava invadir uma casa (em construção), ele fraturou o fêmur ao despencar do telhado. Atendido pelo médico plantonista, teve a fratura confirmada e foi inscrito na Central de Vagas para ser operado no Hospital de Base.

Enquanto aguardava vaga, o acidentado contou com escola policial no Pronto Socorro nos dias 1,2,3 e 4 de outubro. Detalhe: veja no calendário que a medida (do protocolo de Segurança Pública) exigiu o destacamento de escala de policiais durante o final de semana.

Na segunda-feira, 04/10, durante visita de um grupo de vereadores às instalações do PS, a situação chamou a atenção do ex-comandante Geral da Polícia Militar no Estado de São Paulo, vereador Coronel Meira. Ele conta que levantou a situação e, então, soube que a demora se deve à conhecida fila de espera para internação hospitalar em Bauru, situação crônica há anos.

No dia 06/10, em outra reunião, agora com representantes da Diretoria Regional de Saúde (DRS-6) do Estado de São Paulo, com a presença também do secretário Municipal de Saúde, Orlando Costa Dias, o parlamentar explicitou o absurdo da pendência. O sistema de saúde teve de manter uma vaga de urgência e a área de segurança pública um policial para escolta 24 horas, por falta de vaga para internar o paciente, enquanto dezenas de outras pessoas permaneciam (e permanecem) na fila, há dias.

A média de espera por vagas para internação se mantém em torno de 40 registros diários, no site da Prefeitura. E faz muito tempo que é assim. E o governo paulista ainda cortou 12% do custeio (para serviços hospitalares especializados) para a região de Bauru. Uma queda de investimento de R$ 24 milhões apenas neste ano, enquanto o governador João Doria (PSDB) contabiliza superávits sucessivos de arrecadação, mesmo durante a pandemia.

NO HOSPITAL

Finalmente, no dia 06/10 (mesma data da reunião onde a situação crítica de falta de vagas no sistema hospitalar de Bauru foi discutida) o autor da tentativa de furto obteve autorização para se levado para o Hospital de Base, especialista em serviços de trauma, para ser operado.

Resolvida a situação? Nada! Eis que o vereador Meira vai ao Hospital de Base, já no dia 11/10 passado, para vistoriar as ocupações de leitos especializados, junto com o secretário municipal Orlando Costa Dias. Resumo da visita: unidade abarrotada e vários pacientes aguardando vaga no Centro Cirúrgico.

“Eu vi o mesmo policial da escolta do caso do rapaz com o fêmur quebrado e perguntei pra ele: – Você aqui de novo? Ele respondeu que ainda estava fazendo a escolta da mesma pessoa da tentativa de furto. 11 dias depois, ele ainda não havia sido operado”, conta Meira.

Ainda no dia 11 de outubro, outras 12 pessoas estavam aguardando vaga para cirurgia ortopédica no Base.

Pior que isso! Em uma das áreas de espera, outros três agentes de segurança (do Sistema Penitenciário) estavam acompanhando detentos, um de Pirajuí, outro de Balbinos e Reginópolis. Eles também aguardavam por serviço hospitalar.

“Conversei com a diretoria do Base de que não pode esse tipo de encaminhamento porque é caso de urgência. É caso de cirurgia eletiva. O paciente foi inserido no sistema de vagas, mas só deixou o Pronto Socorro e não foi atendido, efetivamente, no hospital. A quantidade de serviços disponibilizados pelo Estado para cirurgias de urgência é muito pequena para Bauru e região. E isto se converte em desperdício e prejuízos aos usuários e ao próprio Estado, porque esses pacientes ficam dentro da unidade esperando cirurgia. Olha o custo integrado para o setor público desta situação”, aponta o parlamentar.

Ressalva….. a solução, natural, definitiva, é o governo do Estado garantir vagas de internação e para cirurgias suficientes para a demanda. O Estado foi, inclusive, condenado em ação da Promotoria com pagamento de multa milionária por descumprir esta obrigação.

Contudo, independentemente deste quadro, a Secretaria de Segurança Pública, a Polícia Militar e a Defensoria do Estado podem discutir protocolo de comunicação especial para casos específicos.

Motivo: uma medida judicial, de urgência, evitaria a necessidade do preso em flagrante permanecer escoltado nas unidades de saúde por vários dias. Este trabalho pode ser inserido nas relações entre as instituições via Defensoria Pública.

Ou vamos deixar a questão como “como está” para um preso, em flagrante, que se não tivesse fraturado o fêmur seria posto em liberdade logo após a audiência de custódia…. por se tratar de tentativa de furto?

O sistema prefere o desperdício e as correntes da maca… A foto da reportagem é real, do fato!

3 comentários em “Uma jornada do desperdício do dinheiro público”

  1. Um eventual HC não seria concedido, porque não se relatou qualquer nulidade da prisão em flagrante. Poderia ser concedida liberdade provisória, devido a situação de saúde.
    Nada resolveria, porém, porque ele ficaria internado da mesma maneira.
    A diferença é que dispensaria a escolta!

    1. A menção foi no sentido de liberar o desperdício da escolta para o caso (já que em tentativa de furto, o sujeito também vai pra rua). Obrigado pela comunicação. abc

      1. Claro, a questão é de saúde, pela demora no atendimento e também pelas medidas de segurança – dispensáveis, como se vê – ou seja, escolta 24 h. por dia. Custo de tres PMs ?
        Perfeito !

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