
Não é nada simples cassar o mandato de um chefe de poder. E bem mais difícil quando o governo tem ampla maioria. Mas a criação da Comissão Processante (CP) nesta segunda-feira (14/9) pode levar a prefeita Suéllen Rosim a ter caminho mais duro pela manutenção do poder junto ao Ministério Público (MP) do que junto ao plenário do Legislativo.
E não é só por que é missão jurídica movediça pavimentar o caminho do andamento regular do processo em ambiente político. E também não pela dificuldade de condução técnica que terão pela frente o presidente da CP, vereador Milton Sardim, o relator Júnior Lokadora e o membro Arnaldinho Ribeiro.
É que o conteúdo já conhecido da Operação Cavalo de Troia demonstra que o oxigênio que a prefeita precisa para sobreviver às gravez denúncias levantadas pelo Gaeco está fora de seu alcance. Ainda que o rito da CP (estritamente técnico) seja entendido pelos membros da Processante; ainda que os depoentes presos depois venham para oitivas tentando desconstruir na CP ou Judiciário a “língua solta” flagrada em escutas legais determinadas pelo Judiciário, o caso do lixo tem bem mais chances de desembocar em pedido de afastamento do cargo do que o que poderá ocorrer na CP.
E exemplos daqui e de outras cidades ajudam a pensar nessa análise. Izzo Filho, em agosto de 1998, não foi cassado somente pelo caso da desapropriação no Jd Vânia Maria e o perfil sem rédea do pecuarista José Amir Neme Mobaid.
Naquela ocasião, após a CP abrir, o governo Izzo se viu diante de uma bateria de novas acusações graves recaindo sobre sua gestão. Se acontecer delação premiada de alguém entre os presos agora – no escândaloso e ousado esquema de fazer de setores da máquina pública do Município a estrutura de franquia da fraude a concessões – tanto pior.
Mas, a exemplo das ocorrências sequenciais de corrupção no governo Izzo, depois e a partir do caso da gleba no Vânia Maria, o governo Suéllen não tem como controlar as investidas que o MP terá obrigação de fazer junto aos investigados. E, assim como na época de Izzo, – onde a denúncia do pecuarista alastrou e trouxe os casos de cobrança de propina contra 14 fornecedores da Prefeitura e a denúncia da extorsão da ECCB (empresa de ônibus coletivo) – a prefeita tende a enfrentar avalanche de interceptações telefônicas já realizadas que tornam incerta sua presença no cargo.

Além disso, o caso lixo atual tem, além da apuração de formação de crime organizado para fraudar concessão, a segunda frente em andamento – na Operação Mobius relativa a coleta seletiva. E já é sabido que daqui virão outros fatos.
Assim como o efeito cascata minou a posição de Izzo, levando o MP a obter na Justiça o afastamento do então prefeito do cargo em razão de outras denúncias, as novas frentes (no plural mesmo) vão, no mínimo, dificultar a vida de Suéllen.
Como adiantamos na matéria sobre os primeiros conteúdos abertos de escutas, ontem, a areia movediça política onde Suéllen terá de tentar ficar em pé tem personagens com pouco estômago para digerir dissabores e pessoas cujo perfil indica dificuldade em manter a boca fechada.

Outro ponto é que, mesmo ainda sem descer a arquivos específicos e conteúdos de notebook e diversos celulares apreendidos, o governo já assiste a própria dupla apontada pelo Gaeco como os “patrões” do esquema de fraude (o casal Hamilton Agle e Cilene Bordezan) lançando frentes de nova apuração. Ainda hoje a tarde o processo incluiu relatório onde Hamilton, manda-chuva da Estre, foi interceptado em conversas com Cilene que colocam o secretário de governo, Renato Purini, na mira do Gaeco e a empresária Gisele Moretti coma “faca nos dentes” – ela saiu de um barracão de recicláveis, há alguns anos, para o centro de denúncia que asfixia seu plano com recicláveis.
A soberba de Bordezan colocou Moretti na mesa da Promotoria. E ela já falou tanto nos celulares apreendidos que vai faltar página para elencar o que Gisele já disse e está no MP e o que pode acrescentar em depoimento.
A Estre não vê o episódio fazer naufragar só o modus operandi de concessão de R$ 5,3 bilhões em Bauru – o que já é prejuízo gigante de pretensões. A empresa de aterros ve soterrar o esquema em Rio Preto, Curitiba e outras frentes.

Não é perder R$ 5 bi em Bauru. É ver naufragar até R$ 32 bilhões nas outras cidades – onde o modelo esquematizado em Bauru serviria para ser reaplicado. Cilene errou feio ao dar canelada em Gisele Moretti. O perfil de Moretti é de lançar labaredas de falas contra quem quer deixa-la pra traz …
E isso se a adjunta Sara Alves e Roldão Pucci não perceberem que a ficha nào caiu. Roldão está afastado do cargo. E ainda tem a frente que vai pra cima do papel da Fipe – fundação que vê a denúncia de concessões bilionárias contaminar sua fase dd bonança na venda de estudos de concessões.
Hamilton pode silenciar ao depor, Cilene fazer o mesmo. Mas laudos com vários itens (temas) de temas foram flagrados, seja com o presidente da Estre, seja com Cilene pondo o ex-jurídico da Prefeitura, Vitor Freitas, também no radar e esquema.
Se Izzo viu Mobaid, pedido de propina contra fornecedores e a extorsão na ECCB em escala em 3 frentes, na sequência, Suéllen tem a fraude no caso lixo, a operação Mobius sobre lixo seletivo, Hamilton pondo agentes e fatos novos na mesa e Gisele Moretti na mira…
Como vão manter tudo isso sob sua guarda e controle… ? Como o MP vai agir ao ter o volume de conteúdos e frentes com a prefeita controlando o cargo e as relações de poder enquanto a CP andar, pelos próximos 90 dias?

_“Uma das coisas que eu quero fazer nessa tarefa, nessa força-tarefa nossa aqui… é chegar no número de valor ‘presente’ dessa concessão, tá, é… calibrado por uma conversa com RENATO e atribuir um valor pra ele, né […] acho que ele está com expectativa que é bem acima do que a gente pode dar, tá, tô bem preocupado com isso, ele tá achando que vai ganhar R$ 30 milhões, R$ 40 milhões”._
Purini disse que não vai comentar citação de conversas entre terceiros. A assessoria de imprensa da prefeita não retornou contato nesta segunda-feira.